Porque falar sobre saúde mental ainda é difícil em Angola

Dr.ª Vanda Franqueira Loureiro - Psicóloga – Lisboa ·

Introdução

Falar sobre saúde mental continua a ser, em Angola, um desafio profundo e complexo. Apesar dos avanços visíveis noutras áreas da saúde e do desenvolvimento social, o bem‑estar psicológico permanece, em muitos contextos, um tema silenciado, incompreendido ou até rejeitado. Ao longo da minha experiência clínica a acompanhar cidadãos angolanos, tanto em Angola como na diáspora, tornou‑se evidente que as dificuldades em abordar a saúde mental não resultam de falta de sofrimento, mas sim de um conjunto de barreiras culturais, sociais e simbólicas que moldam a forma como a dor emocional é percecionada e expressa.

Este artigo propõe‑se a refletir sobre as razões pelas quais ainda é difícil falar de saúde mental em Angola, explorando três eixos centrais: a influência das normas culturais e sociais, a confusão entre fragilidade emocional e doença, e o papel da religião, das crenças e do estigma na construção destas narrativas. Mais do que apontar obstáculos, pretende‑se abrir espaço para uma conversa necessária, respeitosa e culturalmente sensível.

Saúde mental em Angola: um silêncio que fala alto

Em Angola, como em muitos países com uma história marcada por conflitos, instabilidade económica e profundas desigualdades sociais, o sofrimento psicológico é uma realidade transversal. Ansiedade, depressão, luto não resolvido, traumas e stress crónico fazem parte do quotidiano de muitas pessoas. No entanto, estas vivências raramente são nomeadas como questões de saúde mental.

Na prática clínica, é comum que os sintomas psicológicos surjam descritos de forma indireta: dores físicas persistentes, insónias, irritabilidade constante, fadiga extrema ou dificuldades de concentração. Muitas vezes, o sofrimento emocional é vivido em silêncio, normalizado como parte inevitável da vida ou interpretado como sinal de fraqueza pessoal.

Este silêncio não é ausência de dor. Pelo contrário, é frequentemente o resultado de uma aprendizagem social profunda: não se fala daquilo que pode ser interpretado como fragilidade.

 

Barreiras culturais e sociais: a força como valor central

A cultura da resistência

Na sociedade angolana, a resiliência é um valor amplamente valorizado. A capacidade de “aguentar”, de seguir em frente apesar das adversidades, é vista como sinal de carácter, maturidade e força moral. Esta herança cultural, moldada por décadas de desafios coletivos, teve um papel fundamental na sobrevivência de muitas comunidades.

No entanto, quando esta valorização da resistência se torna absoluta, pode transformar‑se numa barreira à expressão emocional. Pedir ajuda psicológica passa a ser interpretado como desistência, fraqueza ou incapacidade de lidar com a vida.

Em consulta, muitos angolanos verbalizam frases como:

  • “Há pessoas com problemas maiores do que os meus.”

  • “Tenho de ser forte pela minha família.”

  • “Isto passa, não preciso de ajuda.”

Estas afirmações revelam uma internalização profunda da ideia de que sofrer em silêncio é preferível a expor a vulnerabilidade.

O peso das expectativas sociais

As expectativas sociais em torno dos papéis familiares e profissionais também contribuem para esta dificuldade. Homens, em particular, são frequentemente educados para não expressar emoções como medo, tristeza ou insegurança. Mulheres, por sua vez, carregam muitas vezes a responsabilidade emocional da família, colocando as necessidades dos outros acima das suas próprias.

Neste contexto, cuidar da saúde mental é visto como um luxo ou como algo secundário, adiável, que só deve ser considerado quando “já não há outra saída”.

 

Confusão entre fraqueza e doença: um equívoco persistente:

Saúde mental não é falta de carácter

Um dos maiores obstáculos à procura de apoio psicológico em Angola é a confusão entre doença mental e fraqueza pessoal. Sofrer emocionalmente é, muitas vezes, interpretado como falta de força, de fé ou de disciplina.

Esta visão ignora um princípio fundamental: a saúde mental é parte integrante da saúde global. Tal como o corpo pode adoecer, também a mente pode sofrer alterações que exigem cuidado, acompanhamento e, em alguns casos, tratamento especializado.

Na prática clínica, é frequente encontrar pessoas que demoraram anos a procurar ajuda porque acreditavam que “deveriam conseguir resolver sozinhas”. Quando finalmente chegam à consulta, trazem não apenas o sofrimento original, mas também a culpa e a vergonha por não terem conseguido lidar com ele de forma autónoma.

O impacto do atraso na procura de ajuda

Quando a saúde mental é associada à fraqueza, a consequência direta é o adiamento da procura de apoio. Este atraso pode agravar os sintomas, tornando os processos terapêuticos mais longos e complexos.

Problemas que poderiam ser trabalhados numa fase inicial — como ansiedade leve, stress crónico ou dificuldades emocionais transitórias — evoluem para quadros mais profundos, com impacto significativo na qualidade de vida, nas relações familiares e no desempenho profissional.

 

Religião, crenças e saúde mental: entre apoio e estigma:

A religião como fonte de suporte

A religião ocupa um lugar central na vida de muitos angolanos. Para inúmeras pessoas, a fé é uma fonte legítima de esperança, sentido e conforto emocional. Em muitos casos, a espiritualidade desempenha um papel positivo na forma como o sofrimento é elaborado.

No entanto, quando a dor psicológica é interpretada exclusivamente através de uma lente espiritual, podem surgir dificuldades. A crença de que o sofrimento emocional é resultado de falta de fé, castigo divino ou influência espiritual negativa pode afastar a pessoa de procurar ajuda profissional.

 

Quando a fé substitui o cuidado psicológico

Na minha experiência, é comum encontrar pacientes que tentaram, durante anos, resolver questões emocionais profundas apenas através da oração ou de aconselhamento religioso. Embora estas práticas possam ser complementares, raramente substituem um acompanhamento psicológico adequado.

Quando a terapia é vista como oposição à fé, cria‑se um falso dilema: ou se acredita, ou se procura ajuda psicológica. Esta dicotomia não só é desnecessária, como pode ser prejudicial.

A saúde mental pode e deve ser abordada de forma integrada, respeitando as crenças individuais, mas reconhecendo os limites de cada abordagem.

 

O estigma social e o medo do julgamento

“O que vão pensar de mim?”

O estigma associado à saúde mental em Angola manifesta‑se, muitas vezes, através do medo do julgamento social. A preocupação com a reputação, com a imagem familiar ou com a perceção da comunidade pode levar ao silêncio e ao isolamento.

Expressões como “não quero que pensem que estou mal da cabeça” ou “isso pode prejudicar o meu trabalho” são frequentes e revelam o impacto real do estigma na vida das pessoas.

 

A importância da confidencialidade e da educação:

Combater o estigma passa, inevitavelmente, por educação e informação. Quanto mais se fala de saúde mental de forma clara, ética e acessível, menor é o espaço para mitos e preconceitos.

O papel dos profissionais de saúde mental é, neste sentido, também pedagógico: esclarecer, normalizar e contextualizar o sofrimento psicológico dentro da realidade cultural de cada pessoa.

 

A experiência de acompanhar angolanos: escuta e sensibilidade cultural:

Ao longo do meu trabalho com pacientes angolanos, tornou‑se claro que a eficácia do acompanhamento psicológico depende, em grande medida, da sensibilidade cultural. Escutar sem julgamento, compreender o contexto social, familiar e espiritual de cada pessoa é fundamental para construir uma relação terapêutica de confiança.

Muitos pacientes referem sentir alívio apenas por poderem falar livremente, sem medo de serem rotulados ou desvalorizados. Este espaço de escuta é, muitas vezes, o primeiro passo para a reconciliação com a própria vulnerabilidade.

 

Caminhos possíveis para quebrar o silêncio:

Falar sobre saúde mental em Angola continuará a ser um desafio enquanto persistirem a desinformação, o estigma e a confusão entre fragilidade e doença. No entanto, mudanças são possíveis.

Promover a literacia em saúde mental, integrar o tema nos espaços educativos, envolver líderes comunitários e religiosos no diálogo e valorizar testemunhos responsáveis são passos importantes para transformar a forma como o sofrimento psicológico é encarado.

Reconhecer que procurar ajuda é um ato de coragem e não de fraqueza pode ser um dos maiores avanços culturais neste campo.

 

Considerações finais:

A dificuldade em falar sobre saúde mental em Angola não é sinal de ausência de sofrimento, mas sim de uma história complexa de resistência, crenças e expectativas sociais. Dar nome à dor, compreendê‑la e procurar apoio são passos fundamentais para o bem‑estar individual e coletivo.

Falar de saúde mental é, acima de tudo, falar de humanidade. É reconhecer que todos, independentemente da cultura ou da história, têm o direito de cuidar da sua saúde emocional com dignidade, respeito e apoio adequado.